Coração de Leão

 


Pela primeira vez na vida, não sabes que caminho seguir. Talvez porque o caminho que pressentes e desejas ainda não esteja definido. E o que conheces tornou-se árido e estéril. Irrespirável!

Pausas e refletes sobre o passado. Questionas as tuas escolhas e o teu propósito.

Começas a desligar-te do ruido que te rodeia e permites que o reencontro contigo próprio aconteça.

Pouco a pouco, as tuas verdadeiras respostas vêm até ti e tu recebe-las. Mesmo quando elas te levam a novas perguntas. Ou quando te convidam a caminhar às escuras sem conheceres o chão que pisas. Ou mesmo quando desafiam a tua mente racional e os condicionamentos culturais e familiares com que cresceste.

Cresceste com a ambição de fazer algo produtivo e lucrativo para alcançar o que muitos designam de sucesso e felicidade. Tens sido orientado por objetivos ilusórios de poder e possuído por objetos que não te representam nem preenchem o vazio que sentes.

É preciso uma tremenda tempestade de amor para ajudar-te a transformar os programas distorcidos que ainda te percorrem e comandam a tua vida. Subterraneamente! Sabotando a realização do teu potencial criativo.

Sentes-te exausto de tentar corresponder às expectativas do mundo e às tuas próprias exigências, mas és suficientemente humilde para assumir que, apesar de teres feito o melhor que soubeste, foste responsável por teres alimentado esse transe coletivo e perseguido uma quimera - numa senda oca e sem sentido, tomando a concha pela pérola, substituindo a substância da vida pela superficialidade de meros instantes.

Tentavas escapar de uma ansiedade inconfessável que se insinuava, mesmo nos momentos mais felizes e que, afinal, queria apenas revelar-te um desequilíbrio estrutural que te levava a desrespeitar o teu ritmo natural e a esquecer os teus valores.

Tomaste o descanso por preguiça. Confundiste movimento frenético com saúde, estimulação constante com profundidade, tecnologia com realidade. Desempenhaste múltiplos papeis e entretiveste dramas. Sobreviveste em ambientes artificiais e tentaste adaptar-te a sistemas que te afastavam ainda mais de ti. Reforçaste estruturas desgastadas que não transmitiam vida, sem perceberes que nem tudo é para reconstruir nem para consumir.

E agora sentes todo o peso das escolhas que não te recordas de ter feito.

Isso leva-te a resgatar uma versão de ti que parece ter congelado no tempo. Uma que continuou a buscar validação e conforto para a sua criança ferida. Que buscou pertença e poder nos sítios do costume e da tradição sem ousar crescer numa nova direção.

Essa criança, assustada com o vazio que a engolia, não conseguia sequer brincar. Estava tão ocupada em ser casa para tantos que se esqueceu de ser lar para si mesma e de encontrar o seu lugar na roda da vida.

O teu corpo cresceu, mas esse vazio continuou em busca de preenchimento - através de gestos e atitudes que te mantiveram preso às correntes do passado.

Distraíste-te com fantasias flutuantes sem nunca seres presente com a realidade. Deixaste o tempo correr sem iniciares o que tanto almejavas. Controlavas para não sentires. Carregavas pesos excessivos sem saberes que tinhas o poder de os transformar.

A vida convida-te agora a largar uma velha identidade, a seres suficientemente corajoso para rugires quando é necessário e a seres gentil com as tuas feridas - reconhecendo o sangue e o solo como essenciais para um crescimento saudável, trazendo alma para o corpo, sensação e discernimento para a forma como digeres a experiência, usas os recursos e geras valor.

E tu aceitas nutrir, cuidar do teu jardim e restaurar a tua relação com a natureza. Com precisão, cortas as ervas daninhas e destróis tudo o que não tem sustentabilidade. Assim crias as condições para que as sementes que agora lanças possam ser as futuras colheitas que te alimentarão a ti, à tua família e à comunidade.

Aceitas dar voz à poesia da tua alma, agindo de acordo com a tua visão. Com coerência e com consistência vais-te reposicionando no mundo, descobrindo também novos lugares dentro de ti.

Estás a começar a conhecer-te a ti próprio, incluindo tudo o que és e tudo o que podes vir a ser. A busca e o buscador dissolvem-se e a bússola antiga esvai-se pela fenda do tempo. O teu destino é agora a jornada e orienta-te a tua consciência.

Já não usas a máscara de quem sabe tudo e tudo controla. Tens vindo a aprender a navegar os teus próprios fluxos e refluxos emocionais, não permitindo que as ondas de emoções reprimidas causem danos irreparáveis a ti e àqueles que amas.

Sabes que uma nova criação pode nascer com a mudança repentina das marés, por vezes no meio do caos e de perdas devastadoras. E permites que as lágrimas contidas durante tanto tempo sejam finalmente derramadas, fazendo lutos de mortes que não conseguiste sentir nem chorar, abrindo-te finalmente à compaixão e às profundezas do amor.

Descobriste recentemente que não vais a lado nenhum sem a tua sombra, por isso, não viras costas à vida nem à morte e permites-te abraçar toda a tua humanidade. Estás a aprender a aceitar a dor e o prazer de igual forma, o que te liberta de vícios drenantes e comportamentos compulsivos que te mantinham escravo de um paradigma patriarcal.

Vês a natureza como um organismo vivo e és uno com ela. Estás a aprender a confiar em ti e, ao fazê-lo, a realidade começa a refletir a tua essência. Estás agora disposto a assumir a responsabilidade por todas as ações e emoções, pensamentos e medos que alguma vez sentiste. Ao fazê-lo, a pressão ancestral para curar uma velha ferida de separação e de conflito entre os sexos é atenuada.

Assim inicias um novo movimento. Com direção e foco. Com sustentação. Com clareza e definição. Com consciência dos recursos que tens dentro de ti e à tua disposição.

Fazes parte da vida e ela de ti.

O teu compromisso com a verdade vai suavizando o teu coração, tornando-o mais forte, libertando-te para incluíres uma mulher como companheira de vida. Lado a lado e em reciprocidade. Porque agora, a tua escolha é o amor. E ao escolheres ancorar o amor, começas a sonhar de novo, desta vez com os pés enraizados na terra. Acedes por isso, de forma orgânica e imediata, à sabedoria da árvore da vida e vives o mistério contido na união dos opostos.

Já não te sentes ameaçado por aquilo que não compreendes e reconheces-te como uma criatura sensível dos reinos selvagens. Não te escondes, não foges, nem lutas contra a tua verdadeira natureza. A paciência e a coragem caminham juntas, tal como a liberdade e o compromisso.

Dificilmente usas as palavras como arma de ataque ou defesa. Dificilmente permaneces num silêncio pesado ou ausente. Pois sabes como o ressentimento e os segredos dividem, fazendo erguer muros intransponíveis, destruindo a intimidade construída. No entanto, sabes que o silêncio restaurador é vital e que a palavra reparadora é medicinal.

Estás consciente que no caminho do amor a vulnerabilidade, o respeito, a confiança e a comunicação são pilares fundacionais de uma estrutura coesa com espaço para crescer. E tentas viver esses princípios diariamente - mesmo nos momentos em que te é mais difícil ou que não és testemunhado por ninguém.

Partilhas-te sempre que possível com o teu circulo mais intimo, e por vezes um pouco mais além, pois estás a enfrentar o medo da rejeição. Deixaste de usar a tua velha armadura enferrujada e estás agora nu perante a vida. Sem vergonha e com orgulho de ti próprio, encontras-te pronto para dar voz àquilo que o teu coração realmente sente e sabe.

Abraças tudo o que és e tudo o que amas. Com grande cura vem uma maior leveza e um refinado sentido de humor. E tu compreendes que a vida pode ser mais bem vivida quando acompanhada de uma boa gargalhada.

Estás a aprender a viver cada momento como único e especial - como uma dança eterna entre a mente e o coração, o masculino e o feminino, a luz e a sombra.

Escolhes as tuas batalhas com sabedoria e dizes sim a uma existência plena. És o homem corajoso que está na posse do seu verdadeiro poder - libertando-se de tudo o que é excessivo, honrando as suas origens e trilhando um novo caminho.

Tu és aquele que promete proteger o que é sagrado. E sabes que a tua devoção e a tua entrega a esta dimensão feminina, ao serviço da teia da vida, é a tua maior força.

Este caminho não é o mais fácil e não é isento de desafios, mas é um caminho que respira beleza e transpira milagres. Encontra-se impregnado de magia e reúne os tesouros valiosos que só um coração de leão consegue reconhecer e irradiar.

E isto é apenas o começo...


Susana Tomás



Artista: NIck Sider (www.nicksider.com)




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