Mistérios de outono

 


Os poderosos raios de sol que iluminaram a minha aldeia durante os meses de verão, deram lugar à luz dourada pálida de outono, revelando uma paisagem em transição.

As romãs já estão pintadas de cor-de-laranja e, quando maduras, ostentarão um delicioso vermelho dourado. Nessa altura, a árvore estará completamente nua, mas suficientemente forte para conter os seus próprios frutos durante a estação fria.

As folhas que desafiam o outono e que teimam em permanecer, continuam a despertar e a deliciar-se com o toque húmido do orvalho. As outras, já caducas e cansadas, aguardam que o vento as chame e as leve para fertilizar o solo de outros destinos.

O tempo continua a folhear os contos e os mitos que se encontram recolhidos nas raízes das árvores mais antigas. E é aqui, nos lugares anónimos que abrigam essas árvores, envolvidas pelo musgo e coroadas pelo luar, que a verdadeira magia de outono tem lugar.

Esta é a altura do ano em que os dragões se espreguiçam diante de mim, fazendo a sua aparição através da sombra que a luz do sol lança entre as nuvens e as árvores, ao longo das colinas e vales.

Os corvos, mensageiros do mundo invisível, fazem ecoar a sua voz estridente através das águas do lago, anunciando a estação que celebra o descanso e que honra a morte.

Durante a noite, as corujas - velhas anciãs - piam sem pudor e voam silenciosamente, atravessando as margens em busca de alimento.

Enquanto isso, os anjos entoam as notas de uma canção de embalar, preparando os humanos e os animais para a estação fria que se avizinha.

Se escutarmos com atenção, podemos sentir as suas asas elevar os nossos corações cansados, incitando-nos a acolher o outono com um sentimento de esperança e encanto, ao mesmo tempo que nos permitimos recolher no regaço da mãe Terra.

Quando a noite cede lugar ao dia, há momentos em que a névoa é tão densa que forma um véu espesso sobre o lago. Pouco a pouco, ela começa a dissipar-se e a desenhar criaturas efémeras e mutáveis que parecem dançar e mover-se em espiral.

Eu chamo-lhes os desaparecidos, os seres que se tornam visíveis, temporariamente, apenas para nos ensinar lições valiosas sobre o espírito e as águas.

Observá-los nesta dança rodopiante, ascendente e descendente, pode ser uma experiência hipnotizante e cheia de beleza. E também um oráculo.

À medida que o sol se faz presente, a paisagem mística desvanece e o lago pode ser visto de novo como o espelho perfeito do espaço e do tempo, do céu e da terra, e de tudo o que existe entre eles.

As águas misteriosas do lago assumem então as suas cores preferidas, oscilando entre o verde genuíno e o azul lunar que sempre deleitam os seus habitantes e visitantes.

O que floresce no outono é uma sensação liminar, um respirar profundo, um silêncio exuberante que nos convida à reflexão e ao retorno a um ritmo mais lento.

Tal como a natureza, o meu corpo ajusta-se lentamente, sintonizando-se com as mudanças que esta estação traz consigo.

Os meus olhos começam a despir-se de perceções distorcidas e a abandonar conceções desgastadas para poderem acolher uma visão mais profunda.

Tomo consciência da minha sensibilidade, das histórias e das cicatrizes que a minha pele guarda. E uma corrente nostálgica percorre-me, mostrando-me que as portas que desejo abrir continuam presentes, mas tornam-se mais subtis.

Ao testemunhar a passagem inevitável do tempo, encontro força nas minhas raízes terrenas e estelares para abraçar os lugares mais vulneráveis e ternos que me habitam - aqueles que coexistem com a determinação de continuar a trilhar o caminho que escolhi.

Pouco a pouco, as memórias das pessoas que têm feito parte da minha jornada encontram um caminho de regresso até mim.

É como se o jardim da minha mente se elevasse para encontrar a todos e a cada um deles, permitindo-me suavizar o meu olhar e dedicar-lhes um lugar especial no altar do meu coração.

Alguns pedem para serem honrados, acarinhados e amados. Estes são os companheiros leais, pilares de força, cuja presença tem sido fundamental para me manter viva enquanto atravessava as noites mais escuras e longas da minha vida. É com estes que partilho as alegrias e as bênçãos que recebo diariamente. E também os medos e os desafios que enfrento.

Outros pedem para serem reconhecidos como aqueles que desencadearam um poderoso crescimento pessoal através de relações intensas e provações difíceis. Embora a vida nos tenha levado por caminhos diferentes, por vezes de forma imprevisível e dolorosa, a aprendizagem que proporcionaram e o amor que ajudaram a desenterrar permanecem comigo.

Aqueles que amo tão querida e profundamente, mesmo depois de terem terminado a sua viagem nos reinos terrestres, vivem eternamente dentro de mim. Através da recordação sentida vejo-os como cinzas douradas, derramando o seu amor sobre mim, de noite e de dia, iluminando o meu caminho.

Para sempre serão a minha estrela guia, as vozes profundas e sábias que me incitam a saborear a doçura da vida ao mesmo tempo que me encorajam a explorar paisagens ainda por descobrir. Ensinam-me a respirar debaixo de água e a confiar que a luz realmente transforma tudo o que toca. Mostram-me como abrir as asas, voar e deixar o sol acariciar a minha pele.

Deixo-me levar pela imaginação e pelo sentimento do momento, até que o pássaro da lua que reside no meu coração me chama, sussurrando-me gentilmente:

Só o amor resiste à passagem do tempo. Descansa e desfruta da tua liberdade.

E eu respondo-lhe silenciosamente com um sorriso nos lábios e um brilho especial no olhar:

Meu querido pássaro da lua, voamos livres. Juntos atravessamos todas as estações, tempos e dimensões.

Sempre.

 

Susana Tomás


Arte: Susan Seddon Boulet



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