Luto e Graça

 


Quando te abres ao amor, abres-te também à possibilidade da perda de quem amas ou de algo que te é querido. E quando a morte se faz presente, o teu mundo desmorona, um gigantesco buraco rompe no centro do teu peito e o caos instala-se na tua vida.

É aí que desces à terra mais profunda e inexplorada do teu ser. É então que ficas a conhecer paisagens desérticas bem como extensas florestas negras. Visitas lugares assombrados e permaneces algum tempo em grutas húmidas. Também percorres longas distâncias e atravessas violentas tempestades, sobes montanhas íngremes e gélidas, e encontras vales isolados e criaturas sombrias. Tudo isso dentro de ti.

Em alguns momentos sentes-te um vulcão em erupção e explodes de raiva por tudo e por nada. Noutros momentos banhas-te em riachos lamacentos de culpa, arrependimento e vergonha. Noutros ainda, envolve-te uma tristeza colossal que te paralisa, ou então és percorrida por correntes elétricas que não te deixam sossegar. Por vezes não sentes absolutamente nada. Tudo te parece surreal e inacreditável.

E, no entanto, tudo isso faz parte. Tal como a maré, deixa que uma onda te leve, depois a seguinte e a seguinte, até ficares impregnada com o poder de todo o oceano. Ainda que, em muitos momentos, sintas que à tua dor se junta um tsunami de outras dores - ancestral, coletiva, planetária - a tua jornada é única e muito pessoal.

A jornada do luto é misteriosa e complexa. Contém em si uma pureza, um tempo e um movimento orgânico, tão cru como sublime, que vai além do que a mente pode conceber ou do que as palavras conseguem descrever. Ela transporta consigo uma linguagem própria, tecida com um fio muito delicado, porém forte, onde vais colocando todas as pérolas que se vão formando nas tuas mãos. Como um ritual sagrado!

Será evidente e, por vezes, duro descobrir que nem todos conseguem compreender esta linguagem de amor nem tampouco comunicar autenticamente contigo. A desilusão e o sentimento de solidão podem ser desestruturantes e dilacerantes. Esses são os momentos em que és confrontada com uma escolha difícil, que te requer discernimento e coragem, porque nem todos continuarão a caminhar contigo. Mas outros virão. Permite-te receber consolo e suporte daqueles que te amam verdadeiramente bem como das pessoas que compreendem a magnitude desta jornada.

A tua escolha consciente de viver este processo plenamente, sem o camuflar nem apressar, transformará a tua vida para sempre. E quando te abres a sentir, as lágrimas derramadas são a expressão líquida da tua dor. São um testemunho vivo da tua humanidade, da dedicação e do amor que deste e recebeste durante um período da tua vida. Essas lágrimas formam um rio que, a seu tempo, nutrirá e fertilizará um novo crescimento.

Com muita paciência e entrega, começas a sentir que se és suficientemente vasta para sentir a dor também te podes permitir sentir o êxtase, e tudo o que existe pelo meio. No entanto, os dias não são todos iguais nem o processo é linear. Mas tu começas a fluir com ele, a confiar cada vez mais na espiral da vida e a escutar o que o teu coração te quer transmitir.

Por vezes deixas-te tocar pelo trilho de cor que o sol deixa no céu e abraças o frio quando ele te visita. Outras vezes sentes que és um longo inverno e nada parece despertar os teus sentidos. Mas, pouco a pouco, começas a abrir os olhos, a sair do teu casulo e a sentir a preciosidade de cada momento. Tornas-te amiga da noite escura e consegues ver as estrelas mais distantes.

Em alguns dias o futuro já não te parece tão cinzento e o desespero e a angústia dão lugar à esperança e à serenidade! Sentes a luz de forma diferente e deixas-te embalar pela melodia vibrante dos pássaros. Inspiras a fragrância das rosas que brotam no teu jardim e começas a sorrir.

Por vezes choras e ris ao mesmo tempo e tens vontade de uivar e gritar desde as entranhas. Abres e fechas o teu coração. E quando te recordas do caminho de regresso ao teu centro, abres de novo. E assim sucessivamente.

Não, não estás louca! É aí que sabes que a centelha de vida que arde suavemente no teu ventre, por detrás da potente cascata emocional das tuas lágrimas, continua pulsante. Não se extinguiu. Mas tu estás diferente, essencialmente diferente. Irreconhecível até.

Numa paisagem tomada pela destruição e marcada pela dor, no meio da confusão e no limite da exaustão, iniciaste uma jornada épica. Única. Irreversível!

A saudade permanece e o luto continua a viajar contigo, mas agora sentes-te envolvida, permeada por um amor oceânico que te convida a descobrir novas formas de te expressares e de expressares criativamente a tua dor.

Quando escolhes viver o mistério e dançar com o paradoxo - perda e graça, luto e gratidão, caos e beleza - começas a ter revelações extraordinárias. E é nos momentos simples e nos lugares comuns que te sentes realmente conectada com a fonte da vida.

Voltas a caminhar neste mundo, mas de uma forma diferente. Em ti bate um coração suave, mas com limites nítidos. Sensibilidade e força, leveza e profundidade, magia e realidade respiram contigo.

Sabes que os laços que te unem aos seres que amas jamais poderão ser quebrados ou esquecidos e que a relação sagrada que tinham não se perdeu. Continua viva. Mais profunda até. A ausência é tangível, mas também o é a vossa ligação, pois agora consegues escutar os seus murmúrios no vento e nas ondas, recordando-te que continuam contigo, em memória e essência. Para sempre.

A jornada do luto, dolorosa e insuportável em tantos momentos, concede-te a medicina do espaço e da presença, o dom da escuta e do sentir. Pouco a pouco, redescobres a tua força e a tua verdadeira natureza emerge, fazendo despertar a tua criança interior que anseia agora por novas aventuras.

Assim vais atravessando camadas e camadas de repressão, ao mesmo tempo que expandes a tua capacidade de amar e experienciar novas conexões, sem deixares de apreciar as memórias preciosas do passado. Escolhes viver aqui e agora, reinventas-te, e reconstróis a ponte que te mantém ligada ao outro lado do arco-íris.

Quando as ondas indomáveis do luto se fazem sentir dentro de ti e se instalam - ora como uma dor intensa e cortante, ora como uma nostalgia suave que te embala - sabes que o teu amor é suficientemente vasto para as acolher. E por vezes sorris, ao imaginares o momento feliz do reencontro e os futuros desconhecidos que ainda estão por vir.



Susana Tomás

 


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