Fio de Pérolas
Para reavivar o espírito
de uma linhagem e restaurar a sua força vital, alguns de nós são chamados a
tocar as raízes ensanguentadas da alma ancestral e atender o que precisa de ser
curado. Somos convidados a segurar o fio que tece tudo até à totalidade e a
recordar a magia que existe nessa tapeçaria caleidoscópica e misteriosa.
Porque uma linhagem é uma
vasta teia tecida através do tempo e porque estamos todos interligados, quando
alguns fios estão emaranhados ou quebrados somos convocados a viajar
profundamente, de olhos abertos e coração presente, para revisitar e
experienciar a multitude de camadas que circundam a ferida nuclear - aquela que
permanece por cicatrizar, fazendo ecoar gemidos de dor através da teia.
Essas camadas podem ser
profundas e densas em alguns lugares, aparecendo por vezes como figuras
sombrias, vozes dissonantes, emoções desconfortáveis, acontecimentos
inesperados. E vêm até nós do outro lado do véu para nos revelar algo que ficou
perdido, por transformar ou esquecido.
E assim somos convidados
a entrar em relação com a forma que essas energias assumem na nossa vida. Para
que possamos abrir-nos ao mistério e sentir que fios podem ser reparados ou
imaginados, e que fios precisam de ser reconhecidos e dissolvidos.
Ou então, talvez só
precisemos de correr o risco de contar uma nova história. Tecer padrões
diferentes. Destilar a sabedoria que a experiência atual já nos devolve e
transmite. E viver.
Qualquer que seja o
caminho escolhido, existe um fio que se prolonga ainda mais no tempo, que vai
além do trauma e da dor. Se seguirmos esse fio chegamos ao lugar onde os
inícios são fins e os fins são inícios, a um tempo em que os nomes são cantados
pela brisa, despertando a alma para a unidade da vida.
Aí encontramos os seres
que guardam os dons da linhagem e que seguram o fio do passado e do futuro em
simultâneo. Os seres que transportam consigo a memória prístina da história que
nos deu origem, bem como o esboço do mapa das possibilidades criativas ao nosso
dispor.
Esses seres antigos são
os antepassados profundos.
Os antepassados profundos
são suficientemente espaçosos para enfrentarem qualquer desafio e conterem tudo
com a sua perspetiva ampla e com o seu amor infinito. Possuem um poder
magnético e a luz cristalina necessária para fazer nascer mundos dentro de
mundos.
Os meus antepassados
profundos viajam através de fios invisíveis e, ao fazê-lo, abrem portas ocultas
na terra e no cosmos. Estas portas movem-se e deslocam-se em sintonia com o
pulsar da vida, proporcionando uma passagem segura para os que vieram antes e
para os que virão depois.
São guardiões da natureza
e dos animais, bailarinas da espiral, oráculos do desconhecido, tecelãs do
espirito, e hábeis na arte da metamorfose.
Os meus antepassados
profundos têm a pele beijada pelo sol de verão e o cabelo encrespado como as
ondas do mar rebelde. São aventureiros e exploradores. Caminham por terras
selvagens, construindo uma fundação forte para eles, para a sua família e para
a comunidade.
Sentem-se seguros e
enraizados na sua humanidade. Vivem em harmonia com a natureza, com os animais
e uns com os outros. Tudo o que fazem é impregnado de devoção, intenção e
celebração. A sua vida é uma prece contínua, uma bela tapeçaria tecida com fios
de verdade e significado, colorida com rituais e poesia.
Os meus antepassados
profundos são encantadores e contadores de histórias. Permitem que novas
narrativas míticas emerjam da terra e das estrelas, mas também contam histórias
antigas esculpidas há muito tempo nos seus ossos.
A luz da recordação
permanece desperta em cada célula do seu corpo. O conhecimento das antigas
civilizações e das criaturas primordiais flui como um rio flamejante através
das suas veias, sob a sua pele. Sempre presente, mesmo quando não é evidente.
São mergulhadores experientes
das profundezas. De certa forma, são mensageiros das águas da vida, nutrindo os
cantos secos e estéreis do esquecimento, restaurando harmonia e conexão onde é
necessário.
Os meus antepassados
profundos conseguem ver e sentir além do que é óbvio, porque estão ligados à terra
e às estrelas. A leveza da sua consciência e o enraizamento no conhecimento
tribal concedem-lhes a capacidade de captar mudanças subtis dentro de si
mesmos, nos outros e no ambiente que os rodeia. Têm o dom da premonição e o
poder de escolher e de fazer acontecer.
São gentis e fiéis jardineiros
da alma. Sabem como semear e o que semear. Colhem os frutos do seu trabalho e
saboreiam, com muito prazer, toda a doçura que a terra tem para lhes oferecer.
O que não é saudável serve como composto para nutrir o solo e prepará-lo para
futuras colheitas. Já as ervas daninhas, estas são removidas com cuidado e
precisão porque tendem a comprometer o florescimento de todo um jardim.
Os meus antepassados
profundos honram a sua necessidade de descanso e renovação. Bebem do rio da
vida, fluindo com as mudanças e com as estações, seguindo um ciclo até à sua
conclusão natural.
Usam as mãos para curar,
criar e abraçar. Reúnem-se em círculos para celebrar a vida e para honrar a
morte. Partilham sonhos e a visão do coração. Cantam, tocam e dançam livremente
à volta da fogueira sob a luz da lua. Ao amanhecer, saúdam o sol enquanto
contemplam a sua luz dourada a escorrer como mel sobre o solo ainda
escurecido.
O seu sentimento de
encanto é contagioso. Admiram a pureza e a inocência dos lírios brancos, e
sentem-se intoxicados pela fragrância e pela sensualidade das rosas vermelhas
que crescem selvagens ao redor das suas casas.
Os meus antepassados
profundos aprendem a sobreviver e a prosperar. Têm vidas reais, cicatrizes
maduras e corações resplandecentes. São frágeis e fortes, ardentes e suaves. As
suas vidas são simples, mas poderosas e cheias de magia.
Compreendem a
complexidade da experiência humana enquanto abrem espaço para o mundo do
espírito. Têm momentos de alegria e de tristeza, reconhecem o poder do riso e a
medicina das lágrimas. Partilham-se, cooperam e escolhem caminhar em beleza
mesmo quando atravessam as tempestades da vida.
Os meus antepassados
profundos são brincalhões e joviais, mesmo quando envelhecem. Os anciãos são
reverenciados como guias sábios e pilares de força, e encontram-se quase sempre
rodeados de crianças. São grandes ouvintes e sabem exatamente o que dizer e
quando permanecer em silêncio.
Os meus antepassados profundos
visitam-me vestidos de animais, ensinando-me a estar presente, a comunicar além
das palavras e a confiar no instinto.
Por vezes vêm até mim
durante a noite, em sonhos. Falam-me por enigmas e convidam-me traduzir uma
linguagem muito antiga, a expandir a intuição e a explorar novos territórios. Especialmente
porque só estes revelam a repetição de narrativas distorcidas, expondo ruído
emocional, crenças limitadoras e outras interferências.
Os meus antepassados erguem-se
das profundezas com um fio de pérolas cintilantes ao redor do pescoço. Têm o
cosmos vivo dentro de si e permitem que o ritmo do infinito seja sentido
através do seu olhar penetrante. São intemporais e amplos.
Os antepassados profundos
são reais e manifestam-se como luz líquida, pó da terra, escuridão resplandecente,
sopro do espírito.
São a voz suave do sagrado
sussurrando-nos segredos através do coração:
Vive plenamente. Há muita magia para teceres e viveres nesta vida.

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