O Escuro que Respira
Em alguns momentos desafiadores da tua jornada terrena
podes ter deixado para trás muitos dos elementos vitais que te compõem -
partículas essenciais que, apesar de esquecidas e abandonadas, ainda residem na
parte mais oculta de ti à espera de serem acolhidas e amadas.
Em momentos terrivelmente devastadores talvez te
tenhas mantido separada das tuas experiências, sentimentos e perceções, para te
protegeres da dor. Esta divisão, ainda que imediata e inconsciente, pode ter-se
fixado e perdurado no tempo trazendo-te sofrimento acrescido e dificuldade em
expressares firmeza e doçura, fazendo-te enterrar a capacidade de assumires os
teus dons e o desejo de te relacionares com a vida.
Talvez o teu espírito guerreiro tenha tomado
totalmente conta de ti e toldado a tua visão, levando-te a ver o medo como uma
verdade que defendes até à morte, mantendo-te envolvida numa luta constante
entre ti e o mundo. Sem espaço livre para te conectares com as tuas
necessidades, e com as necessidades dos outros, não te abres sequer à
possibilidade de seres vista no teu núcleo mais vulnerável e humano.
E segues acumulando combates e feridas, competindo e
exigindo de ti e dos outros. Usas a tua espada afiada, forjada a partir de
dores dilacerantes, para cortares laços significativos e nutridores. Usas o teu
escudo, construído a partir de traições antigas, para te protegeres da
intimidade e da perda. Mas, ao fazê-lo, acabaste por espalhar pedaços de ti e
dos teus semelhantes pelos campos de batalha do tempo, sem te aperceberes que a
maior conquista é a compreensão de ti mesma e que a coragem mais feroz é
enfrentares a verdade do teu coração.
Ou então, talvez tenhas permitido que o teu valor
fosse medido pela quantidade de autossacrifício e renuncia que eras capaz de
suportar e fazer em nome de um ideal de perfeição. Imploraste por atenção,
deste demasiado e esgotaste-te. Encolheste as tuas necessidades e desejos,
negaste o teu poder para te adaptares a uma realidade disfuncional.
Ajustaste-te e, ao fazê-lo, tornaste-te invisível para
ti mesma. Fizeste o impensável para corresponderes às expectativas exteriores e
para seres vista como uma menina boazinha que não deve levantar ondas, que
precisa de se justificar e desculpar perante tudo e todos, ao mesmo tempo que
acumula mágoas, ressentimentos e inveja. Engoliste palavras fundamentais e
aprisionaste emoções viscerais para não teres que confrontar o medo
inconfessável da solidão e o reencontro inevitável contigo própria. Não
percebeste que a tua alma sensível não consegue carregar mais fardos
emocionais, que estás aqui para romper ciclos de autossacrifício, estabelecer
limites saudáveis e assumir o teu dom de cura.
Talvez tenhas usado a força da tua vontade para
construíres e manteres pontes frágeis que precisavam de ser destruídas e
queimadas, para que pudesses ter a possibilidade de viver uma vida mais
autêntica e abrires-te a conexões realmente amorosas. Ou talvez tenhas
destruído pilares sustentadores ou deixado ruir pontes cujas fissuras podiam
ser reparadas com dedicação e paciência, revestidas com esperança e renovação.
No fundo, bem lá no fundo, não gostavas de quem eras e
dirigiste toda a raiva que sentias contra ti e contra o mundo. Talvez tenhas
oscilado entre extremos, sem explorares o espaço sagrado entre ambos e sem
sequer teres consciência do que estava a acontecer.
Qualquer que tenha sido a tua história e o teu
caminho, foste tão além de ti que é difícil reconheceres-te neste momento. Mas
ao refletires sobre o impacto das tuas escolhas e sobre o que poderias ter
feito diferente, se não tivesses mascarado a tua dor, começas a perdoar-te pelo
que não sabias e deixas de ser tão dura contigo própria.
Olhas-te ao espelho pela primeira vez em muito tempo e
perguntas baixinho: quem és tu?
É então que escutas:
Ousa remover, gentilmente, uma a uma, as máscaras que
tens usado para te protegeres da vida e preenche de amor todos os lugares
sombrios que elas ocultam. Pois é aí que reside todo o potencial inexplorado
que se encontra impregnado com a beleza desconhecida do amanhã. Ousa descobrir
toda a luz que não vês e despertar o que se encontra adormecido desde há muito
tempo, clamando união e expressão. Permite que todos os teus sentimentos sejam
sentidos e transforma as tuas lágrimas em diamante.
Pacifica-te com todas as mulheres que já foste e deixa
que elas te abençoem com a sua sabedoria. Ao aprenderes a amar a verdade
escondida em cada lição de vida, aprendes também a amar a parte de ti que te
iludiu e que quase te levou à destruição. Só assim permites que a cura tenha
realmente lugar, em ti e no tempo, expandindo a tua capacidade de te entregares
à vida. E ao aceitares a tua verdadeira natureza, em toda a tua inteireza,
podes aprofundar as relações que te recordam do teu poder ao mesmo tempo que te
desligas daquilo que te mantém dormente.
Começas finalmente a encontrar um equilíbrio entre
força e gentileza. Porque dentro de ti existe luz, amor e acolhimento, mas
também existe sombra, destruição e regeneração. Dentro de ti existe um oceano
sereno que te nutre e cura, e um fogo ardente que te move e transforma. E mesmo
quando és inesperadamente atirada para o fogo, podes escolher ser forjada em
algo mais forte, puro e consciente.
Por vezes precisas de suportar o desconforto de
cresceres além dos limites do que percecionas. Outras vezes precisas de abraçar
o teu ritmo e deleitar-te no espaço seguro da tua natureza. Cada momento é
único e contém em si a imensidão do todo.
Celebra-te! Dança com toda a tua alma. Nalguns dias
será uma dança doce e lenta. Noutros dias será uma dança selvagem e indomável.
Por vezes dançarás num campo coberto de flores suaves e delicadas. Outras vezes
dançarás num chão coberto de lama sob uma tremenda tempestade.
Escolhe honrar a dança com cada passo que dás, ainda
que vaciles ou que o teu coração estremeça. E quando caíres num lugar fundo e
sombrio aproveita a oportunidade para largares uma velha pele que não te serve
mais. Quando regressares desse misterioso mundo subterrâneo haverá um novo
brilho no teu olhar e o teu coração estará mais terno.
Recorda-te que a tua força reside na forma como te
ergues. E que essa mesma força pode ser tão subtil como vigorosa, tão delicada
como poderosa, pode ser intensamente suave e suavemente intensa. Mas tu,
guerreira compassiva, curandeira sábia, tu agora conheces-te melhor. E quando
sacrificares um aspeto da tua personalidade ou da tua vida, será em nome de
algo maior, será uma suprema dádiva de amor.
Recorda-te também que o poder de recriar a tua vida é teu. Pertence-te. Respira profundamente e entrega-te a esta jornada gloriosamente humana como se ela fosse parte integrante do teu destino.
Porque
é!
Susana Tomás
Imagem: Artista desconhecido
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