O Parto da Alma

 


Um eclipse lunar agita naturalmente as águas e movimenta emoções.

Em peixes, as correntes profundas do campo coletivo são amplificadas, trazendo à tona emoções há muito guardadas - para que sejam sentidas, digeridas e transformadas.

Este eclipse lunar em peixes, como clímax de um eclipse solar de leão, traz-nos uma mensagem muito pessoal e ao mesmo tempo universal - o ordinário não só pode dançar com o extraordinário, como pode refleti-lo e recriá-lo. Continuamente.

Mas, para que isso aconteça, estruturas rígidas de personalidade, formas obsoletas de pertença e projeções massivas precisam ser nomeadas e dissolvidas.

É que as nossas células mais antigas recordam o tempo em que tínhamos escamas, guelras e barbatanas. Um tempo em que as águas eram transparentes e invocavam casa. Um tempo em que a comunicação era telepática e natural. E a profundidade acolhia leveza.

E, no entanto, a Terra chama-nos. Crescem-nos os pés, que passam a tocar o solo. Aprendemos a respirar fora de água e a dar forma verbal aos pensamentos. Por algum tempo, tudo parece perfeito. Brincamos no recreio do planeta cheios de inocência e alegria e somos inundados pela esperança de um novo amanhecer.

Sob a influência limitadora de vários sistemas de controlo, o que era simples torna-se complexo e, por vezes, confuso. O que era inteiro separa-se e é espalhado pela superfície. Esquecido.

Mergulhamos num transe coletivo, sem percebermos que há medos e desejos que não nos pertencem. Adaptamo-nos a contextos desequilibrados porque não conhecemos o nosso próprio território.

É necessário atravessar alguns abismos e noites escuras para encontrarmos a alma. Para nos tornarmos inteiros, para regenerarmos e recebermos a orientação que precisamos.

Pouco a pouco, voltamos a sentir que a vida vive no corpo e também além do que é visível e conhecido. E que existe uma força potente e sábia que nutre o quotidiano e sustenta a realidade.

Viajamos então entre o mar e a margem, numa experiência verdadeiramente imersiva. Somos o navegador e o mapa num oceano irrequieto e incerto. Mas agora, conseguimos fluir com as marés, escutar os segredos que as ondas sussurram e deixar que elas nos levem a um porto seguro.

Renascidos e renovados, reconhecemos que cada emoção é essencial à vida e que o grande mistério habita na nossa totalidade - especialmente nas feridas e cicatrizes que se revelam medicina para o mundo ao contarem histórias intemporais.  

Acima de tudo, aceitamos ser o espaço vasto que acolhe e sustenta um novo campo vincular.


Susana Tomás




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