Sob a minha pele
Nos tempos antigos, mais
antigos do que o próprio tempo, era sabido que aquela que assistia a futura mãe
no processo de dar à luz tinha a capacidade de reconhecer o dom com o qual o
recém-nascido chegava a este mundo. O dom era-lhe sussurrado pela brisa,
confirmado pelo voo de uma águia e por fim semeado no seu coração como uma
verdade inabalável.
Também era sabido que
esse dom era guardado como uma joia rara, pela parteira e pelo espírito da
criança, num lugar secreto até que a criança sentisse o apelo de o encontrar.
Quando era chegado o momento, o jovem ou a jovem teria que partir numa jornada que
só ele ou ela poderia iniciar e viver.
Nessa jornada sagrada,
iria em busca de um conhecimento que já residia dentro de si como semente, mas
que só a experiência no mundo poderia revelar, tornando-o real. Mais tarde regressaria
à tribo, incorporando o dom com o qual havia nascido, partilhando-o com a
comunidade.
A parteira, guardiã dos
segredos da vida e da morte, rejubilava com esse momento único. Mesmo depois de
ter cumprido a sua função de portal de abertura e sustentação daquele ser no
momento do nascimento, ela continuava conectada com os movimentos e as mudanças
que ocorriam no corpo do grande mistério.
A rede cristalina da
Terra, protegida pelos dragões mais antigos, informava-a quando um dom era despertado
através do tempo e do espaço. Nesse instante, aonde quer que estivesse, uma
flor desabrochava e ela era envolvida por um perfume inebriante e festivo.
Saber que o plano há
muito delineado era tornado visível, confortava-lhe o coração e fortalecia a
sua confiança no poder do amor.
Os seus olhos, cuja cor
oscilava entre o azul intenso e o cinzento suave, já tinham visto de tudo.
O seu olhar guardava aquele
brilho especial que espelhava a capacidade de acolher e sentir, tanto o êxtase
como a tristeza. Esse era o seu dom. E abrir caminhos, através das tempestades
da vida, era a sua medicina.
Muitas vezes havia atravessado
pântanos sem saber que criaturas a aguardavam no mundo inferior ou sequer se
conseguiria encontrar o caminho de regresso com a sua alma intacta.
Incontáveis vezes havia
mergulhado nas águas profundas, rios e mares, de angústia e pranto. E perda.
Outras vezes, havia sido
convidada a caminhar sobre brasas incandescentes para queimar crenças limitantes,
desconhecendo se o seu corpo suportaria tão grande provação.
Também foi convidada a
caminhar sobre as cinzas da destruição, na mais completa escuridão, e a trazer
luz onde antes só existia dor e torpor. O seu sangue antigo e a força que o
animava deixavam um rasto de luz à sua passagem - o suficiente para fertilizar
os terrenos mais áridos, derreter emoções congeladas e despertar potenciais
adormecidos.
Sabia, porém, que só
conseguiria caminhar por esses vales sombrios incólume se estivesse em
permanente contacto com a sua estrela de origem. Sabia também que o seu centro
de poder teria que estar conectado com as linhas magnéticas que percorriam a
Terra, muito abaixo do nível da superfície. Quando assim era, ela tornava-se um
canal de nascimento, dissolução e renascimento.
Na verdade, ela não se
preocupava em compreender como o processo se desenrolava, porque sabia que o
que acontecia na teia da vida vinha sempre com uma precisão temporal e uma
inteligência orgânica que a maravilhava.
Só precisava de estar
disponível e presente.
Mas a espiral da vida
serpenteia, sensual e ágil, ondulando continuamente entre tempos e dimensões.
Um ciclo cede lugar a outro. Uma nova experiência amplifica a anterior e o
presente, sentido como precioso, enriquece o legado.
E no presente, a mulher
que ajudou tantas outras a dar à luz testemunha os trapos escurecidos e gastos
das suas velhas identidades caindo pesadamente no chão. Mas depois, sem qualquer
surpresa, vê-os transformarem-se em radiantes asas brancas que a erguem aos céus
e lhe mostram mundos mais leves.
Gradualmente, os seus pés
descalços tocam de novo a terra, e ela dança livremente ao som de uma bela
canção. O mundo natural acolhe-a e celebra o inicio de mais uma estação.
Desta vez, no mundo
terrestre, ela já não vive ao serviço da cura. Ela torna-se cura ao serviço da
vida. O seu foco é fortalecer a capacidade de participar na sua própria existência
- receber, sentir e gerar, ela própria, um campo de beleza que seja alimento
para a alma e expressão da sua essência.
No entanto, ela continua
a transportar consigo memórias de tempos há muito idos.
Recorda-se quando o seu
nome foi sussurrado pelo mundo invisível aos seus pais durante um sonho.
Recorda-se do tempo em
que viajou com o seu nome humano - incorporando a estrutura genética e
energética das suas antepassadas, vivendo intensamente dores, medos e desafios
até que estes se transformassem numa dádiva valiosa.
Só recentemente teve a
revelação do seu nome de alma. Só então pôde sentir, pela primeira vez, a
sensação inconfundível da sua própria vibração.
E foi aí que começou a
viver mais como uma flor - abrindo suavemente as suas pétalas, deixando-se
tocar pelo sol. Aceitando a sua fragrância como parte da sua natureza, nutrindo-se
das raízes renovadas.
Agora saboreia a doçura
dos frutos recolhidos. E respira o ar puro do amanhecer sem vestígios das
sombras que a atormentaram no passado. No seu ventre iluminado pulsa um coração
cristalino, que é fonte inesgotável de vitalidade e criatividade.
Ocasionalmente, continua
a assistir em trabalhos de parto e a caminhar por trilhos menos iluminados, mas
apenas por breves momentos. Porque é à gestação da sua visão e ao seu
florescimento natural que ela agora se dedica - sabendo que continua a contribuir
para harmonizar mundos e a viajar com a Terra, envolvida pelo terno abraço da
mãe cósmica.
Susana Tomás
Arte: Annemarie Zylberman

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